Março Amarelo: conheça a história de mulheres que convivem com a endometriose

Março Amarelo: conheça a história de mulheres que convivem com a endometriose

Fotos: Vinícius Becker

Março chega ao fim com um alerta sobre uma síndrome que afeta milhões de mulheres e ainda caminha sob o manto da invisibilidade e do preconceito: a endometriose

A doença, caracterizada pelo crescimento do tecido endometrial fora do útero – atingindo órgãos como ovários, trompas, intestino e até mesmo o fígado —, é uma das principais causas de infertilidade feminina e dor crônica.

Estima-se que, no Brasil, uma em cada 10 mulheres sofra com a condição, totalizando mais de 7 milhões de brasileiras que enfrentam mensalmente (e muitas vezes diariamente) um sofrimento que vai muito além de uma “cólica comum”.

Em Santa Maria, essa luta ganhou força com grupos como o Endoacolhe, no qual mulheres de Santa Maria e região buscam acolhimento. É neste cenário que as histórias da professora Denise Jorgens, 43 anos, e da fotógrafa Patrícia Denardin, 42, se cruzam, revelando caminhos distintos para um mesmo objetivo: o direito de viver sem dor.

Patrícia

Com uma pasta repleta de exames e laudos, a fotógrafa Patrícia da Rosa Denardin, reflete sobre a vida. Os primeiros sintomas de endometriose começaram a aparecer, aos 14 anos, marcados por desmaios e náuseas durante a menstruação.  Como tantas outras, Patrícia cresceu ouvindo que sentir dor era “normal para mulher”.

Durante anos, ela passou por diversos médicos sem sucesso até que recebeu, aos 40 anos, um diagnóstico em janeiro de 2024.

Eu tinha uma dor muito forte no lado direito que irradiava para as costas e que era mais intensa toda vez que eu menstruava. E eu não conseguia me livrar dela. Durante uma viagem à Agudo, indicaram-me um obstetra. Levei meus exames e ele me disse que era endometriose profunda. Ele me orientou a fazer uma ressonância pélvica em Santa Maria e procurar um especialista. O exame confirmou focos no intestino, dentro e fora do útero, nos ovários, nas trompas e no fígado. Disseram-me que deveria fazer cirurgia, mas decidi tentar tudo o que fosse possível antes de operar – conta.

Em maio daquele ano, Patrícia iniciou acompanhamento com a nutricionista Letícia Monfardini, focando em uma dieta anti-inflamatória e suplementação; exercícios físicos com o educador Daniel Brondani e acompanhamento psicológico, além de participar do grupo Endoacolhe. Os resultados obtidos no processo são motivo de orgulho.

Em 10 meses, seguindo o tratamento, consegui diminuir a endometriose em 80% e saí da lista de cirurgia. Hoje, minha vida é normal. Tomo medicamento de uso contínuo para não sangrar e não sinto dor nenhuma. Vou para a academia, trabalho e cuido da casa. Aprendi a olhar para a doença com carinho e fé, entendendo que ela veio para eu aprender a me cuidar e valorizar a vida – conclui ela.

Denise

Por 15 quinze anos, Denise Jorgens conviveu com cólicas intensas e ciclos volumosos, recebendo diagnósticos genéricos e incompletos. Entre 2013 e 2015, ouviu de uma médica que possuía ovários policísticos, mas a dor não parou de crescer. Denise chegou a ser internada, buscou ajuda no Sistema Único de Saúde, mas a cirurgia de 10 mil reais era inacessível e a fila de espera parecia não andar. Em julho de 2025, um exame mudou tudo.

Eu tinha chegado a um extremo de dor pélvica, inchaço abdominal e muita dor no pé. Não conseguia mais caminhar e tive que usar muletas. Eu estava no meu limite. O diagnóstico de endometriose profunda veio em julho, porque insisti muito em um exame específico – relembra a professora.

Em setembro daquele ano, Denise realizou uma cirurgia no Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo. O processo de recuperação ganhou força com o acolhimento de outras mulheres que fazem parte do Endoacolhe e que também passaram pelo mesmo processo:

Minha vida pós-cirúrgica é um renascer. Estou até escrevendo um livro sobre isso, porque sinto que minha história precisa ser contada. Hoje estou aprendendo a entender meu “novo corpo”, que é diferente do que eu tinha há dois ou três anos. Embora ainda tenha algumas cólicas, aquela dor fortíssima desapareceu e recuperei uma qualidade de vida que não tinha há um ano, quando andava de muletas e não respirava direito pelo inchaço abdominal.Tive muito medo da cirurgia por causa de relatos sobre a perda do chamado ‘lado feminino’, mas para mim a operação foi uma necessidade de sobrevivência, um divisor de águas.

Fotos: Vinicius Becker

Endoacolhe

Idealizado pelo médico ginecologista Cláudio Sitya (abaixo), o grupo Endoacolhe nasceu da percepção de que o tratamento da endometriose exige muito mais do que intervenções clínicas. Desde a fundação, em agosto de 2025, o grupo já realizou quatro encontros presenciais, além de se tornar uma entidade jurídica sem fins lucrativos, com registro de marca, site próprio e o apoio da Unimed, que hoje cede o anfiteatro para as reuniões realizadas aos sábados à tarde. Atualmente, a rede de apoio já conta com 160 mulheres, na faixa etária de 16 a 50 anos. 

Nesse espaço, uma paciente conta sua história e a outra se identifica. Esse processo de acolhimento, aliado ao apoio de uma equipe profissional, tem funcionado como um pilar no tratamento da endometriose – conta o médico.

Os encontros ocorrem com uma periodicidade de aproximadamente 45 dias, mantendo um fluxo constante de informação e troca de experiências em um grupo de WhatsApp. Além disso, o Endoacolhe com um projeto que reforça a importância do debate sobre saúde menstrual dentro das instituições de ensino.

Nosso projeto tem visitado às escolas públicas para falar com adolescentes sobre menstruação e a importância de não normatizar a dor da cólica. O objetivo é sensibilizar as meninas desde a menarca para um diagnóstico precoce, evitando que a doença evolua para casos que exijam cirurgia ou que causem dificuldade para engravidar, além de anos de sofrimento – reforça Sitya.

A participação no grupo Endoacolhe é inclusiva e gratuita. As mulheres interessadas em ingressar nessa rede de apoio podem entrar em contato pelo perfil @endoacolhe no Instagram ou diretamente pelo WhatsApp (55) 99921-1144.

Foto: Divulgação

Impacto na saúde da mulher

A origem da endometriose não é exata, mas os mecanismos são bem conhecidos pela medicina ginecológica. A doença se manifesta quando as células do endométrio – o tecido que reveste o interior do útero – começam a crescer em locais fora da cavidade uterina, como nos ovários, intestino e peritônio.

Segundo a médica ginecologista e obstetra Márcia Pires Barbosa (foto abaixo), esse deslocamento celular é o estopim para uma série de complicações:

–  Muitas pacientes são assintomáticas e descobrem a doença acidentalmente em exames de rotina ou ao investigarem a infertilidade, sendo que a endometriose é uma das principais causas de dificuldade para engravidar no mundo. Entre os sintomas comuns, estão as cólicas, dor para evacuar ou urinar, sangramentos ocasionais na urina ou fezes durante a menstruação, dor na relação sexual e dor pélvica crônica. Algumas mulheres também relatam inchaço abdominal e cansaço. É comum que a doença seja subdiagnosticada porque muitas vezes a dor é normalizada tanto pela paciente quanto pelo médico.

O impacto da síndrome na vida de meninas e mulheres também é comentado por Márcia:

A endometriose pode ser incapacitante, impedindo a mulher de trabalhar e produzir no período menstrual. Há também o desgaste emocional e psicológico, pois a paciente já vive tensa esperando o sofrimento do próximo ciclo. Em situações excepcionais e avançadas, a doença pode causar obstrução intestinal, exigindo cirurgias de emergência. Ela pode ser muito agressiva e invasiva, fazendo com que a mulher se sinta refém da condição.

Entre os fatores de risco para o desenvolvimento da endometriose, Márcia afirma que a genética desempenha um papel crucial, com a histórico familiar sendo um dos principais indicadores de alerta.

Existe um componente de história familiar que conta bastante. Além disso, pacientes com ovário policístico podem apresentar um risco ligeiramente maior, mas não há uma correlação ou fator de risco que seja absolutamente claro ou predominante para todos os casos. Temos observado casos em mulheres cada vez mais jovens, inclusive em adolescentes que recém começaram a menstruar – analisa a médica ginecologista e obstetra.

Apesar da complexidade, a endometriose pode ser controlada, com o manejo dos sintomas e na suspensão do ciclo menstrual através de terapias hormonais, cirurgias laparoscópicas ou até mesmo, mudanças no estilo de vida. 

A cura definitiva só ocorreria com a retirada dos ovários, mas esse é o último caso. A doença tem controle. Então, mulheres não desistam. Existe tratamento e os resultados são muito positivos. É possível alcançar uma qualidade de vida igual à de quem não tem a doença. 

Foto: Divulgação

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